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Experimentação e Devir: a Obra de Ayao Okamoto

Pensar, escrever e analisar o trabalho de um artista contemporâneo é um desafio que não pode, evidentemente, prescindir da trajetória do artista enquanto tal. Falar do percurso traçado pelo artista é, aqui, tentar dar voz aos meandros da sua pesquisa, que são implícitos à obra, mas que escapam ao olhar fruidor.

Natural de Assaí-PR e alimentado pelos ares da verve paulistana de meados dos anos 70, Ayao Okamoto faz presente o seu percurso no universo da experimentação artística através da sua pintura incisiva. Silenciosamente, a investigação empírica e a diversidade de materiais e técnicas que explora, estão colocadas no seu trabalho. Ocultamentos, transparências e sobreposições marcam a pintura do artista de ascendência japonesa. E é sobre telas de dimensões pouco tímidas e por meio do seu trabalho "palimpséstico" que Okamoto se torna um "mostrador e criador de afectos", como quer o filósofo Gilles Deleuze. Cabe aí também a constatação do crítico de arte João Spinelli: Como um regente de orquestra, Ayao Okamoto, conduz o espectador a experienciar visualmente diferenciadas emoções plásticas. As múltiplas camadas de tintas utilizadas em cada obra permitem ao artista conquistar nuanças colorísticas singulares, só alcançadas pelos grandes pintores (...). 

Percorrendo por diferentes linguagens ao longo de trinta anos, é a pintura que o elegeu. Desenho, instalação, e a fabricação de objetos têm lugar privilegiado na trajetória do artista; entretanto, parecem muito mais esboçar a síntese que se impõe nas suas composições pictóricas. Aliás, ele mesmo se define como pintor. Ora, é a pintura, condenada à morte por muitos, que se confunde com a própria história da arte. E não é diferente em Okamoto: a pintura se faz registro do seu percurso. 

Eximo-nos de qualquer prática interpretativa que violentamente aplica grandes conceituais do trabalho do artista. No entanto, não há como negar que a obra de arte como experiência subjetiva que é, traz conteúdos que excedem à consciência de seus autores. Certos elementos figurativos nos trabalhos mais recentes de Okamoto saltam aos olhos quando os vemos representados em meio aos traços eloquentes e transgressores de outrora. É claro que os elementos contraditórios, mas complementares, sempre estiveram presentes na linguagem por ele inventada, como observou a crítica de arte Leonor Amarante há mais de uma década. O fato é que as pinturas recentes de Ayao Okamoto revelam a condição mesma do artista: a incessante experimentação como uma forma de existência.

 

                                                                                                                                   

 

                                                                                                                                    Alexandra Nakano de Almeida